segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Uma pausa-transição


Não existe descoberta se a rota já é fixada. Pode-se aprender a içar e a abaixar velas, a lutar contra as correntes, a usar os ventos contrários. Durante esses dias, falamos do aspecto artesanal do trabalho, o primeiro e o segundo nível de organização. Mas o terceiro nível, o da totalidade, das polaridades que coexistem, o da ação no contexto, o momento no qual o nosso temperamento e a nossa biografia nos guiam a constituir e a atravessar um labirinto, a entrelaçar os fios, a apertar o nó final, é o resultado de uma injustiça existencial. Alguns a alcançaram, outros não.
É possível atingir uma nova praia navegando sem uma rota claramente definida. Conhecemos apenas as técnicas para navegar. Não sabemos se atingiremos o continente sonhado. A consciência de nossos limites nos atormenta: talvez, dessa vez, não chegaremos. O fio de Ariadne é o trabalho cotidiano, a concentração sobre a aparente simplicidade de cada ação artesanal que nos guia na névoa que nos desorienta. Com a precisão essencial da ação que poderá ser a última.
Obviamente nenhum de nós deseja sofrer, expor-se à insegurança ou viver em estado de crise. Mas uma nova orientação só é possível como conseqüência de uma desorientação. Na nossa vida, uma crise pode ser uma pausa-transição, na qual a nossa experiência se prepara para saltar numa nova órbita, que revitaliza as nossas energias.
Estar desorientado significa que as soluções e respostas que possuíamos antes já não nos satisfazem. É o nascimento de algo novo, “nove meses” de gestação, com náuseas, o vomito, a sensação de que o corpo físico e psíquico está se deformando. Nesse periodo de desorientação, toda nossa experiência anterior trabalha para buscar um novo modo de manifestar-se, abandonando a casca segura dos hábitos que agora nos atrapalham.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vipa 38

Durante a gincana dessa vila fiquei no topo da caixa d´água do salão.
Durante a gincana dessa vila fiquei no topo da caixa d´água do salão.
Fui a veia surda! “Heim”??
Demorou muito para os primeiros grupos virem. Lá de cima pude ver todas as crianças correndo de uma brincadeira a outra...vi as crianças tentando pegar o totó, ouvi as crianças tentando fazer o Buda rir...
Enquanto esperava fiquei pensando:  O que a gente tá fazendo aqui? Então veio uma sensação de estar em suspensão, e mesmo que pra mim, o vazio faça mais sentido que a existência, lá estava eu e todas essas coisas existindo. Nesse momento olhei para baixo e vi o Axell correndo das crianças, a Clarinha fazendo a centopeia, o Dani, o Well, o Leo. Tinha o céu, tinha a terra e tinha eu, tinha um monte de gente, tinha muitos amigos meus.
 “Faz sentido”.
Houve muito esforço sim, fiquei cansado sim, coloquei toda minha energia sim. Quanto mais detalhes procurei enxergar, detalhes infinitos surgiram. Será que sou capaz de manter a essência da vila viva? Será que consigo vê-la? Então me pareceu que a questão não era ver a essência e deixa-la viva, mas mesmo sem saber ao certo qual é a essência, cuidar para que eu mesmo não a impedisse de estar presente.
Afinal eu sou só um, a vila é um monte de gente. Gente fazendo existir o ambiente.
Foi incrível! Essa Vila foi um golaço! Foi redonda! Foi quentinha apesar do frio!Foi muito engraçada, divertida e também muito rica!
Nos diários quase todos colocaram que não queriam que a vila terminasse.
Eu também.
A Débora, de oito anos, no último dia ficou parada na frente de todos os cômodos do salão só olhando. Olhou o banheiro por um tempo, olhou os quartos por um tempo e quando a Tati perguntou o que ela tava fazendo ela disse: “estou guardando pra não esquecer”.
Eu também não quero esquecer.
A Mari de 12 anos se despediu com os olhos cheios de água.
Eu também.
Quando a vila terminou o Jota, a Tati, a Claudia, a Carla, o Fábio, o Well, quiseram ficar um pouco mais e dormir mais uma noite.
Nós ficamos.
24 horas depois eu tive a primeira refeição sozinho. Sem soquinhos na cara, sem mordidas, sem siriemas capazes de fazer o Chuck Norris chorar como uma menininha.
Somente silêncio.
Comi e voltei para o salão, pra terminar de limpar tudo, pra fazer até o fim.
Pela primeira vez completamente só.  Lembrei-me da manhã em que espalhamos esterco na horta e suados olhamos por um momento para o que tínhamos acabado de fazer. Somente contemplamos um pouco.
Fiquei olhando a vila vazia. Só olhando.


Não durou muito, logo desceu a Inês, desceu o Felix, o Leo depois o Axell.
Não fiquei sozinho antes, e vi que não ficarei.
Que bom saber!
Que bom saber que todos nós gostamos dessa Vila.
Que bom!
Juntos nós demos um pulo que durou uma semana, cheguei ao chão plainando.
Que bom!
E agora estou com a sensação de que voltei pra vida sentindo saudades de casa. Um gostinho no coração de que essa casa é o paraíso.
Feliz de saber que essa casa é possível existir nessa vida.
O paraíso são os outros.
A Vila paraíso somos nós.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Deste modo ou daquele modo

Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a
nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me
ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer
como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLVI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de junho de 2012

De quem é esse pensamento?



Ao ver o mundo do espaço não é possível ver as fronteiras, não se vê onde começa um país e termina outro. Daqui de baixo encontramos placas nas estradas dizendo onde é a divisa entre uma cidade e outra, nesta placa acaba Valinhos e começa Campinas, naquela outra deixamos para trás o estado de São Paulo e somos recebidos com boas vindas pelo estado do Rio de Janeiro. Nos aeroportos existem as alfândegas, onde somos interrogados. Querem saber quanto dinheiro temos, de onde estamos vindo, qual a finalidade da viagem, quanto tempo vamos ficar, onde vamos hospedar e quem irá nos receber. E podem negar nossa entrada.

“O primeiro que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer:"Isto é meu", e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdido se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém"





Será que a nossa mania da posse não está ligada à mania de colocar divisões nas coisas?

Por exemplo, se comermos uma maçã, em que momento exato ela começa a fazer parte da gente? Na boca? Quando o processo de digestão se inicia? Mas espera! Podemos começar a salivar antes de mordê-la, apenas com a imagem da maçã, ou com a idéia de maçã. Mas ela não está dentro de nós! Opa! Mas está na nossa imaginação e já está fazendo efeito em nosso organismo, afinal nossa imaginação também faz parte de nós! Mas a maçã em si, concretamente, não está dentro de nós! Então será que é mais pra frente?E se cuspirmos o bolo alimentar antes de engolirmos a maçã? Então temos que engolir? No estomago então? Mas e se vomitarmos? Então será nos intestinos, quando as propriedades da maça são absorvidas pelo corpo? Será então nas células? Algum cientista pode nos ajudar?
E quando a maça deixa de fazer parte de nós? (...)

Quem é que está decidindo? Quem está colocando as fronteiras das coisas? Debateremos até que aja consenso? O consenso será a verdade? Para algumas pessoas faz mais sentido ser nos intestinos, para outras a intenção de comer a maça já as satisfazem como sendo o momento em que a maça faz parte de nós. Algumas pessoas podem dizer que a maça e nós não são duas coisas diferentes, podem argumentar que a nível atômico fica difícil ver a separação, a nível molecular talvez exista, mas então é uma questão de que ponto de vista escolhemos? Mas independente do ponto de vista, como será mesmo?

Pessoalmente o que mais me interessa dessa pesquisa toda, é ver como eu funciono, e dos pontos que dentro desse funcionamento me sinto próximo a todos os humanos. 
Pensar nisso tudo me mostra como os conceitos humanos são frágeis e do quanto eu tomo eles como algo sólido. E fico me perguntando em quantas situações não estarei tomando minha forma de ver o mundo como a realidade em si. Quantas vezes eu coloco divisão nas coisas, quantas vezes coloco algo como propriedade minha. Isso tudo é natural, eu faço isso todos os dias, vejo muita gente fazendo. Não acho errado achar que as coisas são nossas, ou mesmo didaticamente, fazer divisão nas coisas.
"Vamos combinar que daqui até aqui é mão. Depois começa o braço!" 
Mas acho que confundir o que foi combinado como algo que é inerente a natureza, gera muitos conflitos. Vejo isso ao meu redor todos os dias, nas relações internacionais, na política mundial, na política nacional, na política dentro das universidades, na escola, dentro da sala de aula, na cabeça dos alunos, na minha vizinhança, dentro da minha casa, nos meus relacionamentos e comigo mesmo. 

Nós não tomamos como nosso, somente as nossas coisas, mas também as pessoas.
"Estes são meus amigos, esta é minha namorada, esta é minha mãe, meu pai, minha família."          
Tomamos como nosso também a função que queremos desempenhar na vida.
"Esta é minha carreira, minha profissão, meus estudos, minha pesquisa, meu sonho, minha vontade, minha felicidade. "
Tomamos como nosso até os pensamentos que passam na nossa cabeça.
"Quem pensa isso sou eu, é assim que eu penso, se alguém quiser fazer uma citação sobre isto, por favor, me dê os créditos!" 
Nossa! Deixa-me dar os devidos créditos (como se faz nas teses). 
A primeira citação foi de Jean-Jacques Rousseau. Ao resto fica meio difícil dar os créditos, a coisa de não podermos ver as fronteiras dos países do espaço já ouvi isso muitas vezes de muitas pessoas, o Dalai Lama dá este exemplo no livro: A open heart. O Romeu costuma usar este exemplo no tokkou. De onde ele tirou isso não sei. A propósito foi do tokkou que tirei este tema. A coisa da maçã vem de um punhado de pessoas com as quais já sentei pra conversar sobre isto.

Eu mesmo não saberia dizer exatamente de onde vem cada coisa que influencia meu modo de pensar, nem a extensão de como elas determinam o próprio funcionamento de minha mente. Pelo menos já começo a perceber que isto ocorre e fico mais atento vendo isto acontecendo atualmente. Ter olhado pra trás me ajuda muito, foi o meu Naikan. 
Sou formado pelos encontros. Deste com a minha mãe a todas as pessoas que passaram pela minha vida. Cada uma fazendo sua marca de um jeito, determinando meu jeito de ser e meu modo de experiênciar a vida. Olha só fiz de novo, “meu” modo de experiênciar a vida.

Este pensamento, de quem é?

terça-feira, 24 de abril de 2012

Quase 9 teatro aqui no Yamaguishi.


Nesse fim de semana veio o pessoal da Quase 9 teatro aqui no Yamaguishi fazer uma vivência comigo e com a Aninha.
Quando e Léo me contou do projeto eu achei que tinha tudo a ver com tudo que estou passando.
Não só o caráter do projeto de lidar com a memória e os depoimentos pessoais (que me chamou atenção por ser um curioso em querer saber porque nós somos assim), mas também por ser com professores. Isso tudo me ajudou a dar uma esclarecida em muitas questões que tenho dado especial atenção nos últimos tempos.
Educação, arte, vida, relacionamentos, amizade e jogo.
Que jogo é esse que jogamos todos os dias?
O jogo de estar vivo.
Quando digo jogo aqui, tenho em mente uma conotação neutra, sem polaridade.
Não é um jogo de tramas, um jogo de artimanhas, como se a viver a vida pudesse ser vista como um jogo de estratégias lógicas.
Tenho mais próximo de mim o jogo como brincadeira.
Tem tramas também nas brincadeiras, tem artimanhas também, e é claro que precisa ter estratégias. Mas a atitude do jogador é diferente da atitude de quem brinca.
Quem brinca também é jogador, mas nem sempre quem é jogador está brincando.
O importante é dar atenção na pessoa que está em jogo com a mesma importância que se dá ao grupo de jogadores.
Dar a mesma atenção na forma como deixamos o "bastão" pra quem está vindo, como pra pegar o "bastão" para onde estamos indo.


Além dessas duas atenções, dar a mesma importância em você mesmo, no seu ponto zero, ou ponto de equilíbrio.
Não me parece que a direção é uma só, uma concentração em um aspecto só, que se fecha cada vez mais. Mas sim uma atenção para coisas que acontecem ao mesmo tempo e que é possível perceber todas elas, então eu lido com elas, dando a mesma importância para cada uma. 
Nesse sentido os sentidos se abrem, a atenção se amplia e meu coração se abre também.
Quanto mais eu jogo e brinco mais gostoso fica.
É brincar sem se levar a sério com seriedade.
E com tantas idéias subjetivas para falar do jogo-brincadeira, ele é o espaço do real, do concreto e do palpável.
Onde a vida fica simples de se entender.











Voltem mais, voltem logo, voltem sempre.

Entrem no site quase9teatro.com.br


segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Hibisco e o naikan.

Eu plantei este Hibisco no último dia da última Vila paraíso, mais ou menos 4 meses atrás.
Durante o naikan eu vi o primeiro botão de flor nascendo, durante a semana fui acompanhando seu crescimento.
Vi as formigas andando sobre ele...eu nem pus a mão.
só molhei.
No último dia, quando eu acordei a flor tinha desabrochado.


Naikan


Basicamente o naikan foi pra mim um olhar interno extremamente profundo. Olhando a minha própria história foi riquíssimo começar a ver como cada lembrança se faz presente na pessoa que sou hoje. Eu comecei a entender melhor de onde vem cada coisa que faz eu ser assim desse jeito. O que minha mãe fez por mim, meu pai, as pessoas próximas, amigos e mesmo eu sendo assim cego pra muitas coisas, cheio de coisas pra resolver, posso ser feliz e viver uma gratidão profunda pelas pessoas e pela vida. É mais ou menos isso que estou sentindo.




Vim fazer Naikan, pois quando soube através do Alam, e conforme fui sabendo mais a respeito do Naikan, mais importante parecia poder fazê-lo.
"Examinar a minha própria história", "Porque este [eu] é assim?”.

Voltar a minha atenção para as memórias mais antigas em relação a minha mãe não foi fácil no primeiro dia.
E durante todo este primeiro exame percebi que minhas lembranças estavam bagunçadas. "Quando foi isto?", “isso aconteceu mesmo?", "será que foi assim?", "essa lembrança é minha mesmo ou será que é algo que foi contado para mim?".
Porém pouco a pouco, conforme ia continuando, fui conseguindo criar um mapa com as datas aproximadas dos eventos que me marcaram mais, tendo o período escolar como referência.
Com esse mapa "mais ou menos" feito, consegui focar com mais tranqüilidade em cada período e então as lembranças em relação a minha mãe foram surgindo e pude começar a enxergar uma trajetória.

O que a minha mãe fez por mim?
Como retribuí?
Que problemas causei?

Foi a partir do terceiro dia que procurei ficar mais tempo em cada lembrança, e então a olhar com calma, a fim de ver o conteúdo.
Quando eu era criança minha mãe fez tudo por mim.
Eu era completamente dependente dela.
Se eu comi, foi porque minha mãe me alimentou.
Lembro de um dia que comemos peixe na vizinha, minha mãe tirou os espinhos para mim.
Se eu tomei banho, foi porque minha mãe me banhou.
Se fiz cocô, foi minha mãe que limpou e depois que me ensinou a me limpar sozinho.
Se eu fui à escola, foi ela que me levou, comprou os livros, encapou os cadernos (com plástico azul em xadrez), me vestiu com os uniformes (camiseta branca com o símbolo do colégio Externato São João, bermuda azul marinho, tênis, meia, nessa época não podia ser qualquer meia. Não podia ter costura grossa, pois eu tinha aflição...)
Quanto trabalho eu dei!
Seguindo assim cada evento, lembranças "reais" surgiam,
Nessa época onde a gente morava?
Como era o prédio?
Como era cada cômodo? Detalhadamente... A vizinhança...
Tudo que eu fiz, tudo, minha mãe estava diretamente envolvida, provendo tudo, fazendo tudo, cuidando de tudo.
Tudo isso ela fez por mim.
Eu nada fiz como retribuição.
Nem consegui enxergar as coisas que ela estava fazendo.
Absolutamente cego.
Os problemas que causei... Foram tantos... Fiquei doente muitas vezes, Briguei com minha irmã, me machuquei, fui mal na escola, quebrei coisas em casa.

O ano de 1994 foi pior.

Além dela estar passando por um período de muita tristeza com o divorcio, ainda teve que lidar com um adolescente teimoso, mimado, briguento e revoltado.
Nesse ano matei muitas aulas de matemática, fiquei de recuperação na escola, inventava mentiras, coloquei minha mãe em situações vergonhosas.
Ela vinha estudar comigo, queria me ajudar com as lições (até isto ela fez por mim).
Como eu retribuí? Falei que ela tinha bafo!
Falei que ela nunca estava presente como as outras mães.
Disse coisas horríveis com vontade de magoá-la.
Mas ela continuou fazendo coisas por mim.
Lembro-me de muitas coisas agora.
E com todo este trabalho...Não lembro de ter dito obrigado!
Foi assim à vida toda.
Quando se é criança é difícil retribuir, ter discernimento para perceber essas coisas.
Mas eu continuo cego para minha mãe até hoje.
Continuo mimado igual, achando que as coisas que ela faz para mim são óbvias.
Tão óbvias que nem consigo ver.
Ela continua ainda hoje fazendo muitas coisas por mim.
Ela continua por trás de tudo que eu faço.
Ela só quer eu seja feliz.
Em tudo que ela fez por mim, em cada detalhe, desde que eu nasci, todo gesto, pensamento voltado para mim, é uma extensão de seu amor.

Quando fui começar a examinar em relação ao meu pai, tive receio, achei que não ia ter muita coisa.
Eu tinha um sentimento em mim que por causa da separação ele tinha ficado distante e mais ausente.
Eu tenho atualmente uma relação muito boa com meu pai, então achava que eu não tinha nenhum rancor.
Durante o naikan todos esses sentimentos ficaram expostos, porém ao examinar com cuidado ano por ano eu vi que na verdade ele foi um pai muito carinhoso e presente e que ele fez muitas coisas por mim.
Olhando o período da separação dos meus pais eu percebi que com tudo isso eu vi meu pai como homem muito cedo, um humano normal, vi minha mãe como mulher.
E a partir de então minha relação com meu ele foi muito mais de amizade.
Isto é algo incrível que ele fez por mim.
Mas ele não é um simples amigo, ele é meu pai, fez muito mais por mim do que eu pude retribuir.
Fez muito mais por mim do que eu pude agradecer.
Fui cego também em relação a ele.
E causei muitos problemas.
No Naikan lembrei uma porção deles.

Depois examinei em relação a minha noiva.
Eu comecei achando que eu estava fazendo mais por ela, do que ela por mim.
Quando comecei a examinar não conseguia ver as coisas que ela estava fazendo.
Então percebi que examinar a relação de casal é mais difícil que a relação com os pais, pois não se dependente disso para conseguir comer, vestir...
Então, novamente, vou deixando de ver as coisas que ela faz para mim.
Ela fez sim, depois fui lembrando.
O que me deu medo foi ver que com o tempo eu não percebia mais as coisas que ela sempre fez. Por que essas coisas ficam "óbvias"?
Eu passei a ficar cego também com os problemas que causei, vivendo nesta posição conveniente onde eu acho que faço sempre mais.
No Naikan eu pude rever isso, e isso me faz muito feliz. Daqui pra frente eu não quero que as minhas relações se tornem óbvias para mim.
Basicamente o naikan foi pra mim um olhar interno extremamente profundo. Olhando a minha própria história foi riquíssimo começar a ver como cada lembrança se faz presente na pessoa que sou hoje. Eu comecei a entender melhor de onde vem cada coisa que faz eu ser assim desse jeito. O que minha mãe fez por mim, meu pai, as pessoas próximas, amigos e mesmo eu sendo assim cego pra muitas coisas, cheio de coisas pra resolver, posso viver uma gratidão profunda pelas pessoas e pela vida. É mais ou menos isso que estou sentindo.

Lendo agora minhas impressões eu vi que a coisa de ficar cego ao que as pessoas fazem por mim ficou bem forte pra mim logo que acabou o naikan. O sentimento de gratidão também. 

Mas agora depois do naikan eu fico pensando em como todas essas coisas que eu tive contato, que eu vivi, das coisas que meus pais fizeram, como tudo isso me formou assim. Com a mini-vila que terminou ontem, eu comecei a pensar no quanto de vilas tem mim também. A gratidão está junto disso tudo, pois estou feliz hoje. Mas fico muito curioso nessa coisa de perceber o que está chegando em mim e como eu estou incorporando essas coisas e formando minha personalidade. Como se dá este processo? Quais conceitos estão funcionando como suporte quando recebo as influências? Quais pessoas me influenciam hoje em dia? Por que essas pessoas? Como eu estou enxergando elas? Outra coisa que também fiquei pensando é por que eu me lembrei dessas coisas durante o naikan? bem...e por ai vai...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Chuva e pedra.


Há algum tempo, quando a vida me colocou em uma encruzilhada e muitas dúvidas nublaram qual caminho devia seguir, fui escalar com meu amigo.
Na rocha o caminho é simples, é sempre pra cima. A parceira é clara, é com quem eu amo.
Pode até chover na última cordada, se eu for capaz de continuar olhando a vida com simplicidade, é só curtir a escalada.
Hoje eu lembrei disso!
Obrigado Gibara!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Vipa 37


Estou neste momento sentado no corredor na frente do salão olhando para o gramado. Ficaram os bambus espalhados por todos os lados me lembrando da bagunça que foi a última noite desta Vila que acabou ontem.
Estes bambus jogados refletem para mim a essência desta Vila. Este lugar é a casa deles. A Vila é deles.
Eles deixaram assim e assim ficou.
Sentado aqui sozinho agora chega a ser estranho. Já estou com saudades de todos. Penso que este lugar precisa estar sempre cheio de gente. Ou será que sou eu? De qualquer forma agora remanesce um sentimento muito gostoso.
Começo agora a apreciar esta solitude. Acompanho com meus olhos a folha da árvore que cai com o vento que está esfriando. Ouço os trovões distantes, dizendo pra mim que a chuva está chegando.

Agora estou me lembrando do passeio dos cinco sentidos que fizemos no primeiro dia.
O passeio acabou num banho de chuva!

Os temas desta Vila foram: 
  • Força de vontade. Faço dando o máximo de mim.
  • Faço amizade com tudo e com todos.

Eu propus o tema da força de vontade, pois particularmente eu queria repensá-lo.
Esta fase de tantas mudanças e de recomeçar o movimento das Vilas está me colocando de frente com este tema.

Estou dando o máximo de mim?

Durante a Vila e quando ela termina é claro que sou tomado por um sentimento de grande felicidade, mas o preparo de uma Vila começa muito tempo antes. Eu tenho dificuldade com esta “pré-Vila Paraíso”.
Umas das coisas que pensei olhando para o tema da força de vontade, foi tentar distinguir quais obstáculos são reais e quais são da minha cabeça. Obstáculos que eu creio estar vendo e que vão minando minha força de vontade.
No primeiro dia tinha um pessoal que não queria colher inhame. Mesmo com roupa de trabalho, alguns não queriam sujá-las. Nem mesmo as mãos.
Mas por quê?

Tenho nojo! Tá chato! Quero fazer outra coisa!
Hmm! Por exemplo. O que é o nojo? 

O que é o nojo? Ele é real ou coisa da nossa cabeça?
Fiquei pensando nisso um tempo... O nojo é um obstáculo?
Passei a jogar isso para todas as coisas que atualmente eu estou vendo como obstáculos e fui examinando-as uma por uma. Será que elas são reais ou coisas da minha cabeça?

(Pra fazer isso eu precisei de um tanto de força de vontade!)

Ultimamente tenho tido dificuldade para estar aberto com as pessoas e também dificuldade para me aproximar delas. Mesmo querendo me aproximar tenho vergonha, timidez, então decido evitá-las, pois não quero incomodar.
Agora sinto vontade de me abrir mais.

Faço amizade com tudo e com todos.
Quando penso nesta Vila a palavra que vem na cabeça é amizade.

Por exemplo, O Well chegou somente no dia seguinte. Logo que acordei a primeira pessoa que vi foi ele, lá dentro do quarto dos meninos. Foi como se ele tivesse materializado lá naquele mesmo instante. Eu fiquei muito feliz! Então veio a Isa correndo e pulou em cima dele. Ai eu fiquei mais feliz ainda! Pô! Que da hora ver a amizade deles assim!

A Vila é deles!

E eu só estou ajudando a cuidar para que tenha e continue existindo este espaço para eles estarem juntos e nós junto deles.
Quando eles percebem que existe este espaço eles se esbaldam!
E eu sempre fico surpreso com o quanto eles são inteligentes e espertos.
Nessas horas eu não sinto vontade de ser “pai da vila”, mas sinto vontade de entrar na brincadeira junto com eles e ser criança junto.



Eu posso confiar neles?
Eu posso confiar em mim? Para deixar ser assim?
Na real. Eu tenho alguma escolha?

Fecho minhas impressões com o que a Tati disse no último dia, algo parecido com isso:

“Ainda bem que existe tudo isso! Esta colher pra gente lavar, por exemplo.
Ainda bem que existem todas estas coisas pra gente fazer junto!”

Pois é Tati! 
Ainda bem que existe tudo isso!



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma fómula simples

                                                  Agora vocês sabem!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A queda d`água

" Nossa vida e nossa mente são a mesma coisa. Quando percebemos este fato, não tememos mais a morte nem temos verdadeiras dificuldades em nossa vida."

Fui ao Parque Nacional de Yosemite e vi quedas d`água enormes. A mais alta tem 408 metros e a água desce como uma cortina lançada do topo da montanha. Não parece cair com velocidade, como seria de se esperar; parece cair muito devagar por causa da distância. E a água não desce como uma única torrente, mas se divide em muitas e diminutas  quedas. À distância, assemelha-se a uma cortina. E ocorreu-me que deve ser uma experiência muito difícil para cada gota d`água cair do topo de uma montanha tão alta. Leva muito tempo, você sabe, um longo tempo, para a água chegar finalmente ao fundo da catarata. Parece-me que a vida humana pode ser assim. Temos muitas experiências difíceis. mas ao mesmo tempo, pensava eu, originalmente a água não estava dividida e era um único rio. Apenas quando se dividia é que encontrava dificuldade ao cair. É  como se a água, enquanto rio, não experimentasse nenhuma sensação. Somente quando dividida em muitas gotas é que poderia começar a ter ou expressar alguma sensação. Quando olhamos um rio não percemos a atividade viva da água; mas quando apanhamos um pouco de água num balde, experimentamos algum sentimento pela água e sentimos também o valor da pessoa que a usa. Cientes, deste modo, de nós mesmos e da água, não podemos usá-la de forma meramente material. Ela é coisa viva.
Antes de nascermos, não tínhamos sentimentos éramos um com o universo. A isso chama-se "só-mente" ou "essência da mente" ou "mente grande". Após o nascimento, somos separados dessa unidade, como a água da catarata que se divide pelo efeito do vento e das rochas; só então passamos a ter sentimentos. Você tem dificuldades porque tem sentimentos. Você se apega ao que sente sem saber ao certo como é criado esse tipo de sentimento. Quando você não percebe que é um com rio ou um com o universo, você tem medo. Dividida em gotas ou não, a água é água. Nossa vida e nossa morte são a mesma coisa. Quando percebemos esse fato, não tememos mais a morte, nem temos verdadeiras dificuldades em nossa vida.
Quando a água volta à sua unidade original com o rio, deixa de ter qualquer sentimento individual; a água retoma sua própria natureza e encontra serenidade. Que contente deve ficar a água ao retornar ao rio original! Se assim for, que sentimento teremos ao morrer? Penso que somos como a água no balde. Então, quando morrermos, teremos serenidade, perfeita serenidade. Talvez nos pareça perfeito demais neste momento, tão apegados estamos aos nossos próprios sentimentos, à nossa existência individual. Nós, neste momento, temos algum medo da morte, mas, depois que retomamos nossa verdadeira natureza original, há o nirvana. Eis a razão pela qual dizemos: "atingir o nirvana é morrer". "Morrer" não é uma expressão muito adequada. talvez fosse melhor "prosseguir", ou "continuar", ou "juntar-se". Você poderia achar uma expressão melhor para a morte? Se a achar, terá uma interpretação inteiramente nova para sua vida. será como minha experiência quando vi a água descer naquela grande queda. Imagine! eram 408 metros de altura!
Nós dizemos:"Tudo surge da vacuidade". A totalidade de um rio a totalidade de uma mente é vacuidade. Quando chegamos a esta compreesão, encontramos o verdadeiro sentido da vida. Quando chegamos a esta compreensão, podemos ver a beleza da vida humana. Antes de percebermos este fato, tudo quanto vemos é só ilusão. Algumas vezes superestimamos a beleza; outras vezes a subestimamos ou a ignoramos, porque nossa mente pequena não está em sintonia com a realidade.
Falar sobre isto como estamos fazendo é bastante fácil, mas ter a experiência do sentimento real não é tão fácil. Contudo quando você compreender isto, descobrirá quão insensata era sua velha interpretação e a inutilidade dos esforços que vinha fazendo. Você encontra-rá o verdadeiro significado da vida e, apesar das dificuldades na descida vertical desde o topo até o pé da queda d`água, você apreciará sua vida.

Shunryu Suzuki

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Presente do Papai Noel!

Fiz esse video para participar do concurso do Cifra Club.
Se eles escolherem meu video eu ganho um violão novo! e é um violão DAHORA!
Aproveitei a musica da Wall, pois nos últimos dias essa música não tem saido da minha cabeça!
É waiting for the sun to shine na hora que acordo, é esperando o sol brilhar quando estou almoçando,  Esperando el sol brillar quando tô cagando...(esperando mesmo)!
Essa música é muito bonita e está sendo a trilha sonora desse fim de ano bárbaro!


Torçam para eu ganhar esse concurso. Nunca participei de nada e nem rifa na minha vida ganhei! Mas dessa vez seria um bom presente do papai noel!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Minhas impressões da Vila Mundo.


Essa Vila Mundo começou há muito tempo dentro de mim. Ela veio vindo mansamente, se transformando e se concretizando pouco a pouco a partir da minha vontade e da vontade de muitas pessoas.
A vontade de fazer vila paraíso é uma coisa muito presente e clara pra mim o tempo todo, mas dessa vez essa Vila Mundo tem um gosto especialmente único. Ela marca pra mim o momento em que passei a zelar como pai da vila. Mesmo que eu continue sendo eternamente irmão mais velho do Axell, do Wellington e da Isabella. Essa vila nós fizemos com os nossos próprios pés. Eu, Jota, Lê e Aninha andamos sob um solo seguro que a Inês e a Jane cuidaram, mesmo solo que foi cuidado por tantas e tantas pessoas ao longo da minha história.
E agora eu to feliz pra caralho!
A Wall fez o vídeo desses dias. Ela mandou muito bem. Ela esteve do nosso lado fazendo junto conosco todos os dias. Eu acho que suas fotos mostram isso.


Nessa Vila eu estive presente em cada momento, saboreei cada coisa que aconteceu, e me ajudou a entender melhor como é pra mim essa coisa de aproveitar o aqui e agora.
Pensamos a vila toda em cima do tema prático: experimento de tudo gostosamente.
Jogamos o jogo do bambu e pensamos em como nos posicionarmos no ponto zero.
Zap, zum e boing pensando nas dinâmicas de comunicação.
No jogo das três situações pensamos sobre fato e pensamento.
E fizemos kensan sobre que pessoa, que ser humano queremos de ser. E que mundo queremos construir.
Eu e a sociedade.
Em poucas palavras pra mim fica a imagem do cavaleiro na carroça.
Se você quer que a carroça ande onde chicoteamos? No cavalo ou na carroça?
Se divagarmos onde devemos chicotear, estamos fora da prática e ficamos parados.
Para mim essa coisa: “eu e sociedade” é como essa carroça.
Não há separação entre uma coisa e outra, nem há “dentro e fora”.
Hoje eu sinto que sou tanto o cavaleiro como o cavalo e a sociedade é a carroça. E somos uma coisa só onde quer que eu esteja e independente de como eu veja. Eu a puxo ao mesmo tempo em que ela me carrega.
Ao chicotear o cavalo estou chicoteando a mim mesmo, isso é tudo que posso realmente fazer na prática. A outra opção é ficar puto pela carroça não ser do jeito que eu queria que ela fosse e ficar chicoteando-a esperando que ela se mova.
Onde chicoteamos?
 Pensei sobre isso durante nossas reuniões com a galera e também na reunião com pais.
Pensando nesses dias sobre o tema de “experimentar de tudo gostosamente” foi também muito importante. Parece-me que manter essa atitude de experimentar durante o ato de fazer algo ajuda a encontrar o “gostosamente” que está lá. Isso é diferente de colocar deliberadamente alguma distração pra tornar a atividade mais prazerosa e menos chata. Ou de forçar encontrar alguma razão maior naquilo, espremendo ao máximo para tirar algum proveito.
É simplesmente apreciar cada momento como ele é.
Nesses cinco dias eu pude saborear calmamente cada acontecimento. Não foi difícil fazer isso, pois cuidar dessa vila não teve nenhum esforço, nenhuma obrigação. Apesar de estar agora completamente exausto e ainda assim querendo escrever essas impressões.
É fácil, pois me sinto em casa lá no salão, estou junto dos meus melhores amigos e fazendo umas das coisas que mais gosto de fazer na minha vida.
E eu faço com amor. Eu amo quando encontro a galera de manhã, eu amo subir andando até a avicultura ou a horta. Eu amo ensacar esterco e colher ovos, ou colher cenouras, amo sentar em roda e ouvir cada pessoa, pensar junto com elas. Amo como nesse processo eles me ajudam a me enxergar melhor. Amo, pois através desse processo fico mais pertinho de mim mesmo neste momento presente. Então posso apreciar cada momento como ele é. Posso apreciar a vida enquanto ela acontece e estar feliz pelo simples fato de estar aqui.
É engraçado como sempre acabo voltando para esse ponto.
Mas é que agora, lembrando as coisas que fizemos, eu sinto amor.
Todas as vilas foram incríveis pra mim, cada uma com suas particularidades e com diferentes pessoas. Mas olhando pra mim agora, percebi que nas últimas vilas eu acabava sempre chorando no ultimo dia, depois que a vila acabava. Quando nós “monitores” sentávamos pra falar como tinha sido etc...eu chorava pois falando como tinha sido me emocionava. Dessa vez eu chorei durante a Vila, em vários pequenos momentos. Por exemplo, no dia em que fomos colher cenouras e estávamos voltando da horta eu olhava a galera lá na frente do caminho andando de volta pro salão, ou enquanto a galera entrava na cozinha e eu ouvia o movimento deles, também quando eu ouvia cada um dizer o que pensa, ouvindo as risadas do Lê e do Jota na “bate-caverna” enquanto a Inês fazia massagem na minha cabeça, por causa de uma dor.
Não era nenhum choro flagrante, eram pequenas lágrimas que molhavam meus olhos no momento em que eu parava e pensava “isso que está acontecendo agora é bom demais”, “que bom estar aqui”, “que bom estar aqui com eles”.
É bom poder aproveitar com consciência esses momentos enquanto eles acontecem. Agora não fico lembrando tudo isso pensando: “ nossa!! Fizemos tantas coisas legais, eu devia ter aproveitado mais...”
Eu to bem tranqüilo pois aproveitei do jeito que consegui aproveitar.
Gostaria de morrer com esse sentimento em relação a minha vida.
Tudo justo.
Foi do caralho.
E essa turma é foda!
Amo eles demais.

Agora deixo uns lembretes pra mim mesmo para a próxima Vila.

Olhar pra mim primeiro.
Começar do ponto zero.
Fazer na prática todos os temas.
Ao conduzir uma reunião, não ficar cercando eles para que eles falem o que eu espero deles. Mas ter o tema claro e trazer a atenção para o tema quando o pensamento de alguém se desviar muito.
Lembrar que as minhas crenças, opiniões, etc...são particularidades minhas. Não tem nada a ver com o processo de cada um.
Contribuir para um ambiente de liberdade e de confiança, onde todos possam falar como quiserem, sem se preocupar com palavras, formas de expressar, ou julgamento.
Eu não julgo em primeiro lugar.
Procurar ouvir, só ouvir e ouvir devagar.
Zelar por mim também, pedir ajuda e confiar em todos os zeladores.
Fazer por livre e espontânea vontade, sem esperar por resultados, seja a curto ou a longo prazo.
Não me preocupar em deixar rastros. Citando o Jota:
‎"Pra tocar no coração das pessoas é só prestar atenção aonde está o seu. E o resto é só deixar pra depois."
Vivenciar e construir no presente da vila, o mundo que gostaria de viver cada dia da minha vida.
E por último não esquentar a cabeça com esses lembretes.
Foram esses pontos que surgiram para mim durante essa vila.
Até a próxima.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Meu sonho


Agora reúno toda minha sensatez para me colocar insensato.
E me muno de toda sabedoria para me soltar criança.
Para brincar por toda minha vida.
Ser fiel a mim mesmo.
Ser feliz agora mesmo.
Ser sincero.
Este é meu sonho.
Ele é puro e obsceno.
É uma bagunça e é claro.
É o que eu quero fazer com este tempo.
É o que quero fazer neste espaço.
Este sonho não é só pra mim, ele não é só meu.
Ele não tá lá!
Tá bem aqui!
Não estou escondendo nada.
Você consegue ver isso?
Estou andando seguro e às cegas.
Veja! Eu tô pelado como um peixe aberto em sua mesa.
Seremos capazes de ver através destes rótulos?
Vestido somente com meu próprio sonho me apresento ingênuo.
E nunca antes tão corajoso.
Onde está a realidade?
Onde está o medo?
Quem está dizendo onde o pé deve estar?
Quem é que sente o solo empurrar o seu peso de volta? Os músculos da panturrilha esquentarem? Esparramando os dedos e abrindo os metatarsos?
Nem meu melhor amigo.
Nem minha mãe.
Nem pai.
Nem santo.
Nem namorada.
Quem sente o chão
É o meu
Pé.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ganância emocional.


Mesmo cercado de pessoas que me querem o bem, às vezes me sinto sozinho.
É como se eu tivesse uma ganância emocional, uma vontade de sempre querer um pouco mais de atenção.
Acho que se eu for bem sincero, essa coisa é a base de eu ter escolhido ser ator.
Tem dias que eu não sinto falta de atenção, que gosto de passar desapercebido e ficar mais sozinho.
Tem dias que depois de fazer alguma coisa, em seguida começo a esperar pelo “bom garoto” ou por um aplauso.
Tem dias que depois de fazer alguma coisa fico satisfeito pela simples realização daquilo. Se alguém vem agradecer eu acho muito estranho.
Na escola de kensan no Japão, teve um dia que falei alguma coisa (não lembro o que) durante a reunião e logo depois veio um puta silêncio, quando a próxima pessoa foi falar ela começou a falar uma outra coisa nada a ver com o que eu tinha colocado. Se o que eu tivesse dito fosse análogo a uma bola que eu tivesse jogado na roda, ela se transformou em balão e subiu pro céu. Foi como eu senti naquela hora. Forever alone!


Então eu falei como eu tinha me sentido.
A kanako, uma amiga que fiz no curso, disse que ela me achava engraçado. Ela me via nos intervalos fazendo graça, “batendo a cabeça nas portas baixas do Japão” e achava engraçado porque eu sou alto e desengonçado. Então ela me perguntou se eu faria a mesma coisa se não tivesse ninguém olhando, se eu era capaz de ser engraçado sozinho, fazendo graça só pra mim mesmo.
Talvez eu nunca saiba se ela tinha consciência do ponto delicado que ela estava tocando em mim. Confesso que ouvir aquilo não foi fácil. Me senti pelado porque ela conseguiu ver isso.
Hoje eu lembrei disso porque eu fiquei pensando no que eu quero fazer daqui pra frente.
(Com fim de ano chegando etc...)
E percebi que quando começo a pensar nas coisas que quero fazer acaba vindo junto vontades como; “serei reconhecido ao fazer tal coisa? Isso fará de mim uma pessoa mais querida aos olhos dos outros?”
Então me pergunto: O que eu estou querendo de verdade? É admiração?
Acontece também que mesmo quando não estou preocupado com admiração nenhuma, penso se minha escolha fará as pessoas felizes.
Me pergunto: Porque quero ver as pessoas felizes?
Então começo a perceber que o foco não está em mim, está nas pessoas fora de mim.
Porque será? De onde vem isso?
Eu não acho que isso seja só meu, eu vejo muitas pessoas preocupadas com isso também. (Pelo menos é como me parece).
E eu não estou dizendo que isso seja uma coisa ruim, talvez a busca por querer se sentir reconhecido, admirado, querido, amado, ver as pessoas felizes tenha sido o gás para impulsionar muita gente a ser o que são e de ter realizado as coisas que realizaram. Talvez grandes atores só puderam ser grandes atores por conta dessa ambição. Uma vez eu vi em uma entrevista que Gene Wilder se tornou comediante, pois quando criança gostava de fazer rir sua mãe deprimida.


Bom, não adianta muito eu ficar especulando como será pros outros. Então volto a pergunta pra mim. No fundo, no fundo o que eu quero de verdade?
E tudo o que eu puder imaginar para o futuro é uma projeção das coisas que sinto agora.
Eu gosto de quando as pessoas riem das minhas piadas, gosto de ver as pessoas felizes, gosto de poder ser eu mesmo no dia-a-dia, gosto de me sentir aceito por mim mesmo e gosto de me sentir livre. Pra mim a busca pra me sentir querido, admirado, reconhecido pelos outros dá muito trabalho. Dá muita dor de cabeça quando eu sinto que não estou sendo nenhuma dessas coisas. E todas essas coisas que eu estou sentindo estão dentro da minha forma de interpretar.
O que as pessoas vão pensar de mim?
Está dentro de mim.
O que elas estão na verdade pensando?
Eu não sei.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

teoria da vacuidade 1


Uma das concepções filosóficas mais importantes do budismo deriva daquilo que é conhecido como a teoria da vacuidade. Em seu coração está o profundo reconhecimento de que existe uma disparidade entre como as coisas realmente são, do modo como as percebemos, inclusive a nossa existência dentro dele. Na nossa experiência do dia-a-dia, tendemos a nos relacionar com o mundo e conosco mesmos como se essas entidades possuíssem uma realidade autocontida, definível, discreta (isto é, individualmente distinta, isolada) e duradoura. Por exemplo, se examinarmos nosso conceito de eu, descobriremos que tendemos a acreditar na presença de um núcleo essencial da nossa existência, que caracteriza nossa individualidade e identidade como um ego discreto (individualmente distinto), independente dos elementos físicos e mentais que formam a nossa existência. A filosofia da vacuidade revela que isto não apenas constitui um erro fundamental, mas é também a base para o apego, fixação e desenvolvimento dos nossos inúmeros preconceitos.
De acordo com a teoria da vacuidade, qualquer crença numa realidade objetiva, fundamentada na pressuposição de existência intrínseca independente, é indefensável. Todas as coisas e eventos sejam conceitos materiais, mentais, ou mesmo abstratos como o tempo, são destituídos de existência independente. Tal existência independente, intrínseca, implicaria que as coisas e os eventos são de alguma forma completos em si próprios e, portanto, estão inteiramente autocontidos.
Isto significaria que nada tem a capacidade de interagir com e exercer influencia sobre os outros fenômenos. Mas sabemos que existe causa e efeito – gire uma chave de partida, os plugues de faíca se inflamam, o motor liga e a gasolina e o óleo são queimados. Num universo de coisas autocontidas inerentemente existentes, estes eventos nunca ocorreriam. Eu não poderia escrever no papel e o leitor não seria capaz de ler as palavras nesta pagina. Portanto, já que interagimos e fazemos trocas recíprocas, devemos supor que não somos independentes, embora possamos sentir ou intuir que sim.

DALAI LAMA

domingo, 13 de novembro de 2011

O cérebro determina o que é real?


Estamos cercados de radiação eletromagnética que não vemos. O essencial é invisível aos olhos
Para que eu esteja escrevendo estas palavras, uma coreografia desconhecida organiza a ação coletiva de milhões de neurônios no meu cérebro: ideias emergem e são expressas em palavras, que datilografo no meu laptop graças à coordenação detalhada dos meus olhos e músculos. Algo está no comando, uma entidade que chamamos de "mente".
Segundo a neurociência moderna, nossa percepção do mundo é sintetizada em regiões diferentes do cérebro. O que chamamos corriqueiramente de "realidade" resulta da soma integrada de incontáveis estímulos coletados pelos cinco sentidos, captados no mundo exterior e transportados para nossas cabeças pelo sistema nervoso.
A cognição, a experiência concreta de existirmos aqui e agora, é uma fabricação de incontáveis reações químicas fluindo por bilhões de conexões sinápticas entre neurônios.
Eu sou e você é uma rede eletroquímica autossustentável, que se define através de sua atuação na malha de células biológicas que constituem o nosso corpo. Mas somos muito mais do que isso.
Somos todos diferentes, mesmo se feitos da mesma matéria-prima. A ciência moderna destituiu o velho dualismo cartesiano de matéria e alma em favor de um materialismo estrito. Hoje, afirmamos que o teatro do ser ocorre no cérebro e que o cérebro é uma rede de neurônios que se acendem e apagam como luzes numa árvore de Natal.
Ainda não temos ideia de como essa coreografia neuronal engendra a nossa sensação de existirmos como indivíduos. Vivemos nossas vidas convencidos de que a separação entre nós e o mundo à nossa volta é clara. Precisamos dela para construir uma visão objetiva da realidade que nos cerca.
No entanto, nossa percepção dessa realidade, na qual baseamos nossa sensação de existir como indivíduos, está longe de ser completa. Nossos sentidos capturam apenas uma pequena fração do que realmente ocorre à nossa volta. Trilhões de neutrinos vindos do coração do Sol atravessam nossos corpos a cada segundo.
Estamos cercados por radiação eletromagnética de todos os tipos-ondas de rádio, infravermelha, micro-ondas-sem nos dar conta disso. Sons escapam da nossa audição, grãos microscópicos de poeira e bactérias são invisíveis aos nossos olhos. Como disse a raposa ao Pequeno Príncipe: "O essencial é invisível aos olhos".
Nossos instrumentos em muito ampliam nossa visão, permitindo-nos "ver" o que escapa aos nossos sentidos. Mas a tecnologia tem limites, mesmo que esteja sempre avançando. Portanto, uma grande fração do que ocorre escapa e escapará à nossa detecção. O que sabemos sobre o mundo depende do que podemos medir e detectar.
Quem, então, pode determinar que sua sensação do real é a verdadeira? O indivíduo que percebe a realidade apenas com os sentidos? Ou o que amplifica sua visão com instrumentos diversos?
Obviamente, essas pessoas verão coisas diferentes. Se compararem o que chamam de realidade material, o conjunto das coisas que existem à sua volta, irão discordar completamente. Qual dos dois está certo? Eu proponho que nenhum está. Mas vamos ter de continuar essa conversa na semana que vem.

MARCELO GLEISER


segunda-feira, 7 de novembro de 2011


"Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com quem não há comunicação possível, com quem não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma senão da nossa; as dos outros são olhares, são gestos, são palavras, com a suposição de qualquer semelhança no fundo."
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tadaima.

Chegamos.
A primeira impressão é como se todo esse tempo viajando não fosse mais do que um fim de semana.
Voltei. Pronto. Cheguei.
Sofri uns pequenos choques culturais: agora entendo o que as pessoas falam na rua, o transito é mais caótico. Olho para minha cidade, pra minha rua, pra minha casa com olhos novos, mas eles continuam familiares.
Acordei no meio da noite e não reconheci meu quarto por alguns segundos...No escuro estranhei tudo. Procurei algo que me localiza-se. Demorou um tempo. Onde estou mesmo? Então vi o mural de fotos...Estou no meu quarto!
Encontrei meus pais e alguns amigos, parece que foi ontem que sai de casa pra ir pro aeroporto. Foi realmente muito rápido.
Mas quando uso minha memória e busco nas lembranças tudo que vivi nestes meses viajando, parece que foi toda uma vida.
No avião assisti o filme do Senna.


Uma parte especifica me pegou.
Uma entrevista em que ele falava que estava começando a pensar no Airton Senna pessoa, não somente no Senna piloto. Uma vez que ele achava que teria somente alguns anos correndo em comparação com os anos de vida pela frente. Ele disse que talvez estivesse na metade da vida, que ainda não se sentia realizado, que tinha muita coisa pela frente, muito que aprender, muito pra ser feito...
Se não me engano essa entrevista foi feita no ano que ele morreu.
Nessa viagem toda pensei muito na vida e na morte. Procurei também não ficar só pensando e olhar a vida enquanto ela acontece. Olhar mesmo.
No avião tive a impressão que eu podia morrer a qualquer momento. Então percebi como a vida é irritantemente efêmera. Se foi como uma vida esses últimos 5 meses, agora chegou ao fim.
Aqui no Brasil não consigo contar pra pessoas como foi no Japão.
O Japão está comigo e ao mesmo tempo ficou pra trás.
Nada de concreto eu consigo segurar nas minhas mãos e nenhum momento é possível ser vivido novamente.
Se minha vida estivesse acabando exatamente agora, nada do que vivi vai permanecer comigo. Mas tudo que vivi vai estar comigo na pessoa que sou neste exato momento.
E a pessoa que sou neste exato momento aceita morrer com felicidade?
Bom essa pessoa está feliz de estar vivo, do avião não ter caido e de estar em casa se sentindo bem vindo.